
O que esperar da primeira semana de internamento no IPTA? Um guia para familiares e centros de origem
15 de julho de 2026
Neste guia, explicamos como funcionam esses primeiros dias e como lidamos com os desafios desse processo.
1. O Manejo da Abstinência
Nos primeiros dias o foco total é a estabilização clínica. A desintoxicação pode causar a chamada síndrome de abstinência, que exige monitoramento constante.
Por indicação médica, é comum que o paciente fique mais restrito ao leito nos 2 primeiros dias, sob observação da equipe de enfermagem. Isso ocorre para que haja adequação da medicação e para garantir a segurança física. Nesses dois primeiros dias, o paciente ainda não participa dos grupos terapêuticos. A prioridade é o manejo de sintomas e adaptação.
1.1 Entendendo a Síndrome de Abstinência
A síndrome de abstinência é o conjunto de reações orgânicas que surgem quando um indivíduo interrompe ou diminui drasticamente o consumo de substâncias psicoativas após um período de uso contínuo, devido a adaptação fisiológica à presença da substância. As manifestações clínicas dependem diretamente do tempo de consumo e do tipo de substância utilizada. Frequentemente, o quadro se inicia com a "fissura", um impulso incontrolável pelo consumo, que pode vir acompanhado de desorientação e agitação intensa.
A abstinência é uma etapa esperada no processo de desintoxicação, porém o suporte médico é indispensável. Tentar interromper o vício sem auxílio profissional aumenta consideravelmente as chances de recaída e expõe o paciente a crises graves.
- Sintomas comuns: agitação, ansiedade, irritabilidade, insônia, impulsividade, confusão e prejuízos na memória.
- Sintomas Críticos (Urgência Médica): convulsões, delírios e alucinações, ideação suicida e agressividade.
Atenção: Quadros agudos de abstinência configuram emergência psiquiátrica. Em situações de risco à vida do paciente ou de terceiros, acione o SAMU (192) imediatamente ou direcione, havendo a possibilidade segura, o paciente à UPA mais próxima com urgência.
2. Período de desafios
É esperado que, sob o efeito da abstinência, o paciente apresente confusão e ambivalência. Ele pode oscilar entre o desejo de se recuperar e a vontade impulsiva de abandonar o tratamento. Nossa equipe técnica é treinada para contornar esses momentos com escuta ativa e acolhimento, ajudando o paciente a atravessar o pico da fissura. Como não é permitido fumar durante a internação, a abstinência do cigarro pode ser um gatilho emocional forte. Nesses casos, a equipe intervém para que essa frustração não prejudique o tratamento.
3. Para além da medicação
A APTA é comprometida com os princípios da Reforma Psiquiátrica. Acreditamos que a medicação é uma ferramenta essencial, mas não a única. Não é característica da nossa instituição o uso de dosagens excessivamente altas ("dopar" o paciente). Buscamos o equilíbrio para que ele possa participar ativamente das oficinas e grupos, sempre visando uma possível redução gradual da medicação para a alta e continuidade ambulatorial. É importante ressaltar que as medicações de uso contínuo (clínicas e psiquiátricas) são avaliadas pela nossa equipe médica para a continuidade durante o internamento.
4. Acolhimento
Mais do que um protocolo, o acolhimento na APTA é uma prática que permeia todo o nosso atendimento desde o primeiro contato. Entendemos que o ingresso na instituição é um momento de extrema fragilidade, por isso, nossa equipe multidisciplinar trabalha para que o paciente se sinta visto em sua singularidade, e não apenas como um quadro clínico a ser tratado. O acolhimento envolve uma escuta qualificada, empática e sem julgamentos, sendo a base necessária para construir o vínculo terapêutico que sustenta a confiança no processo de recuperação. Queremos que o paciente se sinta em um ambiente seguro e acolhedor, onde sua história é respeitada e seu protagonismo é encorajado e trabalhado no Projeto Terapêutico Singular.
5. Comunicação e Sigilo
Uma das maiores angústias da família é a busca por informações. No entanto, por questões éticas e em conformidade com a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), a equipe não fornece atualizações detalhadas sobre o estado do paciente por telefone. Todas as informações sobre a evolução do paciente no tratamento são repassadas de forma transparente e humanizada durante a primeira visita presencial.
Sobre o uso do WhatsApp:
Lembramos que a APTA viabiliza o direito do paciente de se comunicar, mas o acesso ao WhatsApp é supervisionado pela equipe com o objetivo de preservar o sigilo das informações e garantir que o contato externo não desestabilize o ambiente terapêutico ou o próprio processo de recuperação do indivíduo.
6. Orientações para Centros de Origem e Municípios
Para pacientes encaminhados por Secretarias de Saúde e Assistência Social (especialmente em casos de rompimento de vínculo familiar), a colaboração técnica é vital. Caso faltem informações no ato da internação, poderemos solicitar ao centro de origem um relatório social e histórico de acompanhamento detalhado nesta primeira semana. A falta de itens básicos (roupas, produtos de higiene, medicação de uso contínuo) pode prejudicar a adaptação, por isso, solicitamos que o envio de pertences seja agilizado para garantir o bem-estar e melhor aproveitamento do paciente.
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